quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Entrevista com Francisco Imbernón

Francisco Imbernón fala sobre caminhos para melhorar a formação continuada de  professores

  

Levantar propostas para melhorar os programas voltados à formação continuada de professores é o principal foco das pesquisas de Francisco Imbernón, doutor e mestre em Filosofia e Ciências da Educação e catedrático de Didática e Organização Educacional da Universidade de Barcelona, na Espanha. Em entrevista concedida por e-mail a GESTÃO ESCOLAR, ele defende que o salto de qualidade depende necessariamente de o trabalho em equipe se tornar de fato colaborativo. Cabe às administrações públicas - no caso do Brasil, as secretarias estaduais e municipais de Educação - oferecer apoio concreto às unidades escolares para que uma verdadeira revolução ocorra na atuação dos professores.
"Os docentes devem se assumir como protagonistas, com a consciência de que todos são sujeitos quando se diferenciam, trabalham juntos e desenvolvem uma identidade profissional", diz Imbernón. Nesse sentido, é natural que o papel dos coordenadores pedagógicos também seja central. Cabe a eles ajudar as respectivas equipes a refletir e encontrar soluções para as situações-problema do cotidiano da sala de aula - o que, por sua vez, vai fazer com que o caráter individualista atribuído à atuação docente caia por terra definitivamente.
Quais são as características de um bom programa de formação de professores e o que é essencial para que ele cumpra seus objetivos?
FRANCISCO IMBERNÓN
Em primeiro lugar, a formação em serviço requer um clima de real colaboração entre os pares. Quem não se dispõe a mudar não transforma a prática. E quem acha que já faz tudo certo não questiona as próprias ações. É preciso também que a escola ou o centro de capacitação tenham uma organização estável - baseada em alicerces como o respeito, a liderança democrática e a participação de todos - e aceite que existe diversidade entre os educadores, o que leva a diferentes maneiras de pensar e agir. Além disso, é fundamental ter um auxílio externo consistente. Boa parte das propostas formativas é promovida por administrações públicas. É óbvio, mas nem por isso menos relevante, que as pesquisas apontem que o apoio efetivo às escolas é mais importante do que boas intenções ou palavras em documentos - sobretudo quando é preciso assumir riscos relacionados à experimentação. Nos momentos de planejamento, execução e avaliação dos resultados, os órgãos administrativos precisam ouvir os envolvidos. Afinal, os educadores só mudam crenças e atitudes de maneira significativa quando percebem possibilidades concretas de repercussão no processo de ensino e aprendizagem. Se enxergam benefícios para os alunos e para a forma com que exercem a docência, passam a pensar a formação como um ganho individual e coletivo, e não como uma agressão externa.
No livro Formação Continuada de Professores, o senhor fala sobre uma transformação no papel docente - de objeto a sujeito das atividades formativas. Promover essa mudança também deve fazer parte dos objetivos de um bom programa?
IMBERNÓN
Sem dúvida. Muitas vezes, os docentes são condenados a ser objeto de um planejamento dirigido a professores e professoras sem identidade profissional - ainda que ela exista, muitas vezes não é reconhecida com suas características, valores, peculiaridades e práticas sociais e educacionais. Desse modo, é comum que uma pessoa, supostamente detentora de mais conhecimento, doutrine os colegas. No futuro, espera-se que isso não seja o predominante e que os docentes se assumam como protagonistas, com a consciência de que todos são sujeitos quando se diferenciam, trabalham juntos e desenvolvem uma identidade profissional. Trata-se de uma alternativa que aceita a subjetividade como um elemento de peso na forma de ver e transformar a realidade social e educacional e a capacidade de produzir conhecimento.
Como devem agir os coordenadores pedagógicos a fim de colaborar com essa troca de paradigma?
IMBERNÓN
Pouco a pouco, cresce a consciência de que é preciso ter um modelo formativo mais reflexivo que contemple práticas colaborativas. Isso é essencial para criar espaços de aperfeiçoamento, inovação e pesquisa nos quais sejam analisadas as dúvidas individuais e coletivas dos professores. Cabe ao coordenador ajudá-los a superar esses obstáculos e encontrar as saídas mais adequadas para cada desafio. Isso porque só há uma mudança real quando os docentes encontram soluções para as situações-problema que enfrentam na sala de aula. No futuro, haverá mais demanda de coordenadores que contribuam para o diagnóstico de problemas, em conjunto com suas equipes, do que solucionadores externos. Mudanças profundas só acontecerão quando a formação deixar de ser um processo de atualização, feito de cima para baixo, e se converter em um verdadeiro processo de aprendizagem. Isso implica ter uma visão diferente do que é o aperfeiçoamento e de qual é o papel docente, além de uma nova metodologia de trabalho. O coordenador pode transformar o cenário atual: da busca por um ensino eficaz mediante técnicas didáticas deduzidas de princípios gerais para uma reflexão que considere o desenvolvimento dos alunos e do professor e promova relações sociais igualitárias e justas em sala de aula. 

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